Presidenta da entidade avalia que busca por engajamento nas redes sociais e crise político-institucional reduzem espaço para discussões sobre problemas estruturais do Brasil
A crescente influência das redes sociais nas campanhas eleitorais e a predominância de conteúdos rápidos e voltados ao engajamento estão reduzindo o espaço para discussões aprofundadas sobre propostas e problemas estruturais do Brasil. A avaliação é da presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro.
Em entrevista à Agência Brasil, Samira classificou o fenômeno como uma “tiktokização” das campanhas eleitorais. Para a dirigente, parte das candidaturas passou a priorizar estratégias de marketing, vídeos curtos e conteúdos de rápida repercussão em detrimento da apresentação detalhada de projetos e programas de governo.
A avaliação ocorre a menos de três semanas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro.
Crise institucional ocupa espaço do debate eleitoral
Outro fator apontado pela presidenta da Fenaj é a atual crise político-institucional envolvendo o Poder Judiciário e outras instituições.
Segundo Samira, a repercussão diária desses acontecimentos ocupa grande parte do noticiário e das discussões nas redes sociais, fazendo com que propostas dos candidatos e demandas da sociedade recebam menor atenção.
A Fenaj considera que fatos de relevância institucional precisam ser acompanhados pela imprensa. O problema, segundo a avaliação apresentada, ocorre quando praticamente toda a agenda pública passa a girar em torno da crise.
O resultado seria uma redução do espaço destinado à discussão sobre políticas econômicas, sociais e outros desafios que deverão ser enfrentados pelos futuros governos.
Fenaj critica superficialidade das campanhas
A entidade também chama atenção para o formato adotado pelas próprias campanhas nas plataformas digitais.
Na avaliação de Samira de Castro, poucos candidatos têm utilizado suas redes para aprofundar discussões sobre os principais problemas brasileiros.
A disputa pela atenção do eleitor, cada vez mais concentrada em conteúdos curtos, estaria estimulando campanhas baseadas em peças de rápida repercussão e estratégias voltadas ao engajamento.
Esse modelo pode dificultar o acesso dos eleitores a informações mais detalhadas sobre as diferenças entre os projetos apresentados pelas candidaturas.
Jornalismo declaratório também preocupa
A presidenta da Fenaj também criticou o chamado “jornalismo declaratório”, modelo de cobertura baseado principalmente na reprodução das declarações de autoridades, candidatos e personagens envolvidos nos acontecimentos.
Para Samira, o jornalismo precisa ir além da simples repercussão de declarações e ampliar a participação de especialistas, organizações da sociedade civil e da própria população na cobertura eleitoral.
A proposta é permitir que os problemas enfrentados diariamente pelos brasileiros também sejam confrontados com os compromissos apresentados pelos candidatos.
Imprensa precisa manter uma “segunda agenda”
Mesmo diante de crises políticas de grande repercussão, a dirigente defende que os veículos de comunicação mantenham espaço permanente para assuntos estruturais.
A cobertura das crises institucionais deve continuar, mas sem eliminar discussões sobre os desafios econômicos, sociais, ambientais, tecnológicos e geopolíticos do país.
Essa agenda, segundo a avaliação da Fenaj, precisa ser acompanhada durante e depois das eleições, com fontes plurais e confiáveis.
Mudanças climáticas estão entre temas considerados urgentes
Entre os assuntos que deveriam receber maior atenção nas eleições de 2026, Samira destacou as mudanças climáticas.
A discussão envolve não apenas os impactos ambientais, mas também as consequências econômicas e sociais de eventos extremos, como secas, enchentes e alterações nos ciclos produtivos.
A crise climática já havia sido apontada por outras organizações ouvidas pela Agência Brasil como uma das pautas que perderam espaço diante da crise institucional.
Terras raras e data centers também entram no debate
A exploração das terras raras e de minerais estratégicos aparece como outro assunto considerado relevante para o futuro econômico e tecnológico do Brasil.
Esses recursos são fundamentais para diversas cadeias industriais e tecnologias avançadas, tornando a discussão diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico e à soberania nacional.
Samira também chamou atenção para o debate envolvendo a atração de data centers para o país, atividade que pode gerar investimentos tecnológicos, mas também envolve questões relacionadas ao consumo de energia, água, infraestrutura e planejamento econômico.
Sociedade pode perder espaço para discutir projetos de governo
Para a Fenaj, o principal risco da combinação entre crise institucional, busca por audiência instantânea e campanhas cada vez mais orientadas pelas redes sociais é o enfraquecimento do debate sobre projetos de governo.
Sem discussões mais aprofundadas, propostas apresentadas pela sociedade civil e questões estratégicas para o desenvolvimento brasileiro podem permanecer em segundo plano durante o período eleitoral.
A entidade defende que o jornalismo exerça sua função de interesse público oferecendo ao eleitor informações que permitam comparar propostas e compreender como as decisões políticas podem afetar sua vida.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, o desafio apontado pela Fenaj é recuperar espaço para um debate eleitoral que vá além da repercussão de crises, declarações e conteúdos virais e permita maior discussão sobre os caminhos propostos para o Brasil.

