A ampliação do acesso aos serviços de saúde começa a transformar a realidade de comunidades ribeirinhas do interior do Amazonas, onde durante décadas moradores enfrentaram longas distâncias, dificuldades de transporte e falta de atendimento médico em situações de emergência.
Em Carauari, no Médio Juruá, relatos de mortes e sequelas provocadas pela demora no atendimento ainda fazem parte da memória dos moradores. A região possui uma extensa área territorial e muitas comunidades só conseguem chegar à sede do município após horas ou até dias de viagem pelos rios, dependendo das condições de navegação e do período de seca.
Um dos relatos é de Francisco Solivan Peres de Araújo, morador da zona rural de Carauari, que perdeu a mãe quando tinha apenas dois anos de idade. Ela morreu durante o parto de sua irmã, em uma época em que a família não tinha condições de chegar rapidamente à cidade para buscar atendimento.
Segundo relatos reunidos pela Agência Brasil, situações semelhantes eram comuns até os anos 1990. A implantação de um sistema de lanchas de resgate ajudou a melhorar o atendimento emergencial, mas a distância entre as comunidades e a área urbana continua sendo um dos principais desafios para garantir assistência médica aos ribeirinhos.
Novos pontos de atendimento aproximam saúde dos ribeirinhos
Uma iniciativa recente busca reduzir esse problema com a instalação de dois pontos de saúde nas comunidades de Bauana e Campina, em Carauari. A expectativa é que as estruturas possam atender moradores de 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar aproximadamente 4,7 mil pessoas com serviços de atenção primária.
As unidades contam com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, atendimento odontológico, internet e equipamentos de telessaúde. A proposta é integrar os serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS), permitindo que os moradores tenham acesso mais rápido aos cuidados básicos sem precisar percorrer grandes distâncias até a sede do município.
A iniciativa faz parte do projeto SUS na Floresta, desenvolvido em parceria entre a Prefeitura de Carauari e organizações da sociedade civil, com participação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Umane, além da gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
Atendimento mais próximo pode reduzir resgates
Com a presença de equipes de saúde mais próximas das comunidades, a expectativa é diminuir a necessidade de deslocamentos emergenciais por lancha. Segundo estimativa apresentada por um profissional de enfermagem ouvido pela reportagem, os atendimentos locais podem reduzir em até 80% as chamadas de resgate.
A ideia é que os pacientes sejam avaliados e estabilizados nas próprias comunidades e encaminhados para a sede do município somente quando houver necessidade de atendimento especializado ou de emergência.
O serviço é especialmente importante para uma população que, segundo profissionais que atuam na região, costuma procurar atendimento médico principalmente em situações de emergência ou durante as visitas das unidades básicas de saúde fluviais.
Saúde sem afastar moradores de seus territórios
Para os moradores, levar os serviços de saúde para mais perto significa melhorar a qualidade de vida sem obrigar as famílias a abandonar seus territórios tradicionais.
As comunidades do Médio Juruá têm sua economia ligada ao extrativismo, ao manejo sustentável do pirarucu, à produção de látex, à coleta de produtos como andiroba, açaí e ucuuba e à agricultura familiar. A permanência dessas populações também contribui para a conservação da floresta e da biodiversidade amazônica.
O desafio, no entanto, continua sendo ampliar e manter estruturas de saúde em uma região marcada por grandes distâncias e altos custos logísticos. Em Carauari, o serviço municipal de resgate por lancha representa um gasto mensal estimado entre R$ 40 mil e R$ 45 mil. A prefeitura também conta com unidades básicas de saúde fluviais, mas as visitas ocorrem de forma eventual devido aos custos envolvidos.
Governo federal amplia investimentos
O Ministério da Saúde informou que tem buscado ampliar os investimentos voltados às populações ribeirinhas e comunidades localizadas em áreas de difícil acesso. Segundo a pasta, R$ 500 milhões estão sendo aplicados em 2026 para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha.
Ainda conforme o ministério, existem atualmente 332 equipes de Saúde da Família Ribeirinha e 71 Unidades Básicas de Saúde Fluviais nas regiões que contam com esse tipo de atendimento. A proposta é enfrentar desafios como as barreiras geográficas, a falta de assistência e a dificuldade de manter profissionais de saúde em áreas isoladas.
Moradores defendem expansão dos serviços
Apesar dos avanços, os moradores afirmam que ainda é necessário ampliar a presença da saúde pública nas comunidades do Médio Juruá e em outras regiões ribeirinhas do Amazonas.
A instalação dos novos pontos de atendimento representa uma redução significativa das distâncias. Em alguns casos, o deslocamento até uma unidade de saúde próxima pode cair de cerca de 12 horas para aproximadamente quatro horas, dependendo da comunidade de origem e das condições de transporte.
A experiência de Carauari mostra que aproximar os serviços de saúde da população ribeirinha pode representar mais do que uma melhoria na assistência: significa reduzir o tempo de resposta em situações de emergência, evitar agravamentos de doenças e ampliar as possibilidades de prevenção e tratamento para quem vive em áreas remotas da Amazônia.
Para os moradores, cada nova unidade instalada representa a esperança de que histórias de perdas causadas pela distância e pela falta de atendimento adequado deixem, gradualmente, de fazer parte da realidade das comunidades ribeirinhas do Amazonas.

